Opinião

Por Rodrigo Silveira, em 27/10/2014 às 19:58  

O coronelismo nordestino

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A cada comentário sulista ou paulista de que o Nordeste é responsável pela vitória do PT, surge a acusação de ódio e preconceito entre as regiões. Façamos uma análise mais profunda, porque de Fla-Flu já basta a propaganda eleitoral da Dilma, que acusou Eduardo Campos, Marina Silva e Aécio Neves de quererem deixar o povo miserável, desempregado e endividado e de serem inimigos dos nordestinos.

Quem fala mal do PSDB diz ainda que Dilma teve muitos votos mesmo nos estados em que perdeu. É verdade. No entanto, ter entre 35% e 45% dos votos numa eleição de segundo turno é natural, independentemente do partido político. Anormal é ter 80% dos votos num estado em três eleições seguidas, como no Maranhão. Há algo de errado nesta sociedade que despreza a existência de um alternativa de poder e isto merece ser analisado.

Não sou contra nordestinos. O cidadão nordestino é como qualquer um sulista. O cidadão de Belágua (MA), que deu 92% dos votos para Dilma, é um ser sujeito de direitos e que nasce com a mesma capacidade que um catarinense de Benedito Novo, cidade que deu 83% dos votos ao Aécio. A diferença está no grau de desenvolvimento humano da sociedade, e nos fatores que influenciam o seu pensamento. Quando falo no Nordeste não quero aqui atacar o cidadão nordestino. Há pessoas excepcionais desta região. A questão é social, cultural, demográfica e educacional, como passo a expor, em quatro análises breves.

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1 – EDUCAÇÃO

Primeiramente, tratemos da ignorância. Ignorante é o ser que ignora, que não tem conhecimento de determinada coisa. No Brasil, estamos falando do cidadão sem acesso minimamente adequado à educação. E ignorantes há em todas as cidades brasileiras, do Amapá ao Rio Grande do Sul. O que se discute é a sua incidência no quadro geral da população.

De acordo com o Ministério da Educação, o Paraná, por exemplo, alfabetiza 96% das suas crianças até os 8 anos, idade considerada adequada. Já no Maranhão e em Alagoas este índice não chega a 65%, afetando de forma crucial o desempenho dos demais 35% de brasileirinhos e brasileirinhas ao longo de toda a vida escolar. Ou seja, a capacidade de absorção de conhecimento do cidadão que tem a educação tolhida desde o início é reduzida, e isto influencia os que estão ao seu redor, inclusive os que avançaram um pouco mais e que em tese teriam a tendência de analisar a situação de forma mais aprofundada.

A taxa de analfabetismo acima dos 15 anos de idade no Nordeste é de 15,9%, de acordo com a PNAD/2012. É basicamente o índice da população votante que não sabe ler e escrever, e a maioria dos que sabem não passaram do Ensino Fundamental. No Sul, o índice de analfabetismo acima dos 15 anos de idade é de 4,1%, ou seja, quase 1/4 do registrado no território em que o PT vence.

Um nordestino médio estuda 6,2 anos, enquanto um cidadão do Sudeste fica na sala de aula em média 8 anos. Trata-se da média. Destrinchando os números, vê-se ainda que a taxa de ingressantes no ensino superior nas regiões mais ricas é muito maior que nas mais pobres.

Nordestino é burro? Não, mas a incidência da ignorância é maior. É questão de acesso à educação. Quem estuda mais, informa-se mais, trabalha mais e tem rendimentos maiores. Os dados do IBGE mostram que a sociedade nordestina, desde o início da República, tem índices educacionais piores do que nas demais regiões e isto afeta sim a capacidade analítica do cidadão.

Dizer que o voto de um eleitor analfabeto tem o mesmo embasamento de um profissional liberal que estudou 16 anos da sua vida para ganhar um diploma de Ensino Superior é desprezar o poder transformador que a educação tem na vida de um ser humano e na construção de uma nação. Poder este mais do que transformador, libertador! A educação constrói cidadãos.

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2 – DEPENDÊNCIA DO GOVERNO

O Nordeste sofre com o coronelismo histórico. A carência de serviços e oportunidades, ao contrário do que diz a propaganda, permanece enorme, e faz o cidadão votar naquele que lhe dá o benefício imediato. Que benefício? Basicamente a luz, o caminhão-pipa, a comida. Eleitor sem escolaridade e sem horizontes pensa apenas na sua sobrevivência.

É preciso reconhecer a influência do voto de cabresto no Nordeste. Basta cruzar o mapa do Bolsa Família com o mapa eleitoral em todas as eleições que já passaram. A Arena dominou o Nordeste durante o Regime Militar. Posteriormente, foi o PFL que mandou e desmandou na região por duas décadas distribuindo sacolões, caminhões-pipa, cisternas e postes de luz. Nos últimos 12 anos o PT substituiu apenas um fator na fórmula do PFL. O sacolão não existe mais e foi introduzido um cartão magnético chamado Bolsa Família. Não mudou a prática, apenas a ferramenta, que dá a FALSA sensação de independência, pois a pessoa tem em mãos o dinheiro para fazer o que quiser. A população dos grotões nordestinos, como em Belágua (MA), cidade que citei no início, não tem muitas aspirações a não ser sobreviver.

O PT foi muito competente ao se apoderar dos instrumentos de controle da população que todos os governos anteriores tinham em mãos. E se apoderou de forma mais nefasta ainda. Aliou-se aos Sarney, a Collor, aos Ferreira Gomes, aos Barreto, e vários outros coronéis que há muito tempo controlam boa parte das aspirações dos seus povos, e concomitantemente condenou os adversários à posição de inimigos da região, jogo político que os pefelistas nunca conseguiram fazer com tanta competência.

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3 – CAPITAIS SÃO EXCEÇÃO

O que expus acima é o quadro total da região, e não pode ser generalizado. Nas capitais o candidato Aécio Neves teve votações normais para uma eleição com apenas dois candidatos. Em Recife ele fez 40% dos votos, em João Pessoa 44%, em Aracaju 43%, em Maceió 48% e em Natal 41%. Isto ocorre porque elas concentram os níveis de vida, de educação e de emprego melhores se comparados ao interior, onde está a maioria dos votos. Nas capitais os cidadãos são menos dependentes da mão do governo. Os grandes centros nordestinos representam, assim como no Centro-Sul do país, um cenário natural da democracia, onde boa parte da população considera outros fatores na hora de decidir o voto, que não apenas a simples necessidade de sobrevivência.

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4 – VOTO CONSCIENTE NO PT

Quando fala-se que o PT tem o voto dos menos instruídos, não se pode deixar de considerar a existência de uma parcela de cidadãos que estudaram e trabalharam e mesmo assim votaram na Dilma. Estas pessoas devem ser respeitadas, ainda que existam divergências.

O problema, no entanto, não é votar no PT. É algo mais profundo. O que se tem que combater é o voto cabresto de cidadãos sem acesso à informação que se veem acuados pelo governo que os ameaça caso não recebam apoio eleitoral. A luta é contra o coronelismo.

O que preocupa é o uso da máquina pública de forma amedrontadora por parte do governo petista, onde governadores e prefeitos aliados ameaçaram a população miserável do interior com a retirada do Bolsa Família caso não votassem em Dilma Rousseff.

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COMO MUDAR O NORDESTE?

O Nordeste precisa de um plano de desenvolvimento que iguale os níveis sociais da região ao resto do país em um determinado tempo. Aécio Neves apresentou um plano de ação que traria este resultado, segundo ele, em 20 anos. Tratava-se do Plano Nordeste Forte, que ultrapassaria mandatos e seria uma política de desenvolvimento permanente, o que não se vê no mandato petista. Não obteve, no entanto, sucesso nas urnas.

A mudança vai além da troca do partido que está no poder. A história mostra que não adiantou trocar a ARENA pelo PFL ou pelo PMDB, nem o PFL pelo PT. Para se ter uma ideia da profundidade do problema, Sarney virou governador em 1965 prometendo um novo Maranhão contra as velhas oligarquias da época.

A mudança é cultural, e só ocorrerá quando o desenvolvimento econômico e a educação chegarem de forma efetiva aos grotões do país. As práticas políticas só se alteram à medida em que os fatores que influenciam o cidadão são outros e as suas aspirações ultrapassam o simples desejo de sobrevivência. Quando o ser humano tem um emprego e a capacidade de discernimento adquirida na escola, ele percebe que o governo deve estar a seu serviço e não o contrário.

É preciso refletir de forma profunda. O resultado eleitoral demonstrou que não é fácil reverter o poder de manipulação dos eleitores nas regiões menos desenvolvidas. Mas há uma saída, que parece não estar propriamente no mérito do PSDB de convencimento, mas no fracasso do PT. Se Dilma não mudar os rumos da política econômica, daqui a 4 anos o cenário será outro, e os benefícios sociais serão engolidos pela inflação e o desemprego. As urnas acabaram de dividir o país em dois, mostrando que boa parte da população já começou a sentir estes efeitos.

Cabe a nós esperarmos, nunca deixando de respeitar o cidadão nordestino, mas lutando sim, contra a perpetuação do coronelismo e da política de gerenciamento da pobreza predominante no Palácio do Planalto.

No domingo mais de 51 milhões de pessoas saíram de suas casas para apertar o número 45 na urna. Isto tem um significado. Continuemos na luta.

‪#‎MudaBrasil‬




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