Brasil

Por Observador Conteúdo, em 02/02/2015 às 09:02  

Brasil no buraco

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Na semana passada o país finalmente conheceu na plenitude os resultados da irresponsabilidade que marcou a gestão das contas públicas durante boa parte do governo Dilma Rousseff (PT). O Brasil terminou 2014 com o maior deficit de que se tem registro.

Foi um rombo de R$ 344 bilhões, o equivalente a 6,7% do PIB. Uma parcela dessa cifra (R$ 32,5 bilhões) decorre do saldo primário negativo –ou seja, o setor público gastou mais do que arrecadou, mesmo antes do pagamento de juros da dívida. A maior fatia, cerca de 6,1% do PIB, explica-se justamente pelos juros –uma enormidade.

Não surpreende, assim, que o governo tenha feito o máximo esforço para aprovar no Congresso o abandono da meta de poupança. Sem a manobra, os gestores públicos responsáveis pelo descalabro estariam ameaçados pelas sanções administrativas e até penais estipuladas em lei.

Disso eles escaparam, mas dificultaram a tarefa de Joaquim Levy, titular da pasta da Fazenda. O buraco aberto em 2014 mostrou-se mais fundo do que previsto por analistas e, certamente, pelo próprio ministro recém-chegado.

Em outras palavras, o aperto necessário para atingir o superavit primário de 1,2% do PIB prometido para 2015 terá de ser maior: passou de cerca de R$ 65 bilhões para R$ 100 bilhões.

As medidas já anunciadas por Levy (como cortes de gastos, mudanças no seguro-desemprego, abono salarial e pensão por morte, aumento de tributos) trarão cerca da metade do valor necessário.

Torna-se quase impossível cumprir a meta sem novos cortes draconianos ou mais aumento de tributos. Quais? Da reversão de desonerações, inclusive na folha de pagamentos, ao Imposto de Renda, nada está fora de cogitação.

Um quadro desalentador; superá-lo exigirá persistência e competência da nova equipe econômica, bem como apoio de um Legislativo que não dá sinais de querer trégua com o Executivo.

A equação ainda se complica quando se leva em conta a paciência do contribuinte, já consumida pela recessão, pela alta na conta de luz, no preço dos transportes urbanos e no IPTU –sem mencionar o risco de faltar energia e água.

A presidente Dilma Rousseff, de forma tardia e apenas por questão de sobrevivência política, ao menos reconheceu a necessidade de mudar os rumos na economia.

Mas os ajustes seriam mais fáceis se Dilma se portasse como estadista, reconhecendo erros e falando com franqueza ao país sobre os desafios que estão à frente. Enquanto insistir em dourar a pílula, não contará com a boa vontade dos brasileiros.

Folha de S. Paulo – 02/02/2015




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