Brasil

Por Observador Conteúdo, em 18/03/2015 às 10:42  

O que fazer?

Tamanho da fonte: a-a+

Caros amigos,
me perdoem se envio esta mensagem sem a indicação visível dos destinatários. Todos vocês me honraram com mensagens generosas, no dia de ontem, em função do artigo publicado no domingo. Igualmente, muitos de vocês, de uma forma ou outra, levantaram o tema urgente: qual a saída, o que fazer, como poderíamos proceder? Entendo que a pergunta se refere, genericamente, ao Brasil, ao bem estar de sua população e à sociedade em geral.

Inicialmente, ressalto a modéstia de minhas possibilidades e a mesma perplexidade sob a qual me encontro. Da lista de destinatários dessa mensagem, apenas alguns sabem sobre a minha história, mas não os demais. Também acreditei em inúmeras promessas políticas de mudanças ao longo do período contemporâneo, desde o “PMDB autêntico” dos anos setenta ao campo petista que depois emergiu. Desde o final dos anos sessenta estive envolvido diretamente em política, inicialmente no movimento estudantil e, depois, em tudo o que fosse possível. Vivi a maior parte de minha vida no Rio Grande do Sul, um estado onde é alta a politização da maior parte da população e onde sempre se formaram muitos políticos e formas de ação política, entre os quais o MST, que conheço muito bem.

Por essas e outras razões, gostaria de ter pronta a resposta à pergunta “qual a saída?”. Mas não tenho e, assim, posso apenas especular a respeito. Caso tenham paciência, deixo alguns argumentos a respeito abaixo.

Primeiramente, o diagnóstico mais geral, que parece encontrar maior concordância. Estamos em meio a uma crise civilizatória de proporções planetárias. Inclusive com fenômenos novos sob os quais não existem ainda análises plenamente convincentes para a ampla maioria. Mudanças climáticas, por exemplo. Como entender que ainda existam grupos sociais fortes (política e numericamente) que resistem à mera ideia de existência do fenômeno? As evidências da finitude de recursos, como outro exemplo, nos deveria impor uma ampla discussão sobre formas de consumo, etc. Ou ainda as novas formas de comunicação que explodiram nas últimas duas décadas, o que está transformando até mesmo que antes chamávamos de “interação humana”. Portanto, existe aqui um fator importante a ser considerado: processos e fenômenos globais, que também nos afetam de alguma forma.

Mas, no caso brasileiro, um país que é excepcionalmente “abençoado por Deus” (pois temos relativamente pouca gente para tanto território e recursos, entre outras vantagens), o problema principal é outro: nossa história lenta (leia-se: forte concentração de poder e da riqueza, altíssima desigualdade social) que impediu até aqui que a maioria se educasse adequadamente e, assim, pudéssemos observar a formação de mais grupos sociais que fossem gradualmenbte integrados às “elites intelectuais” (grosso modo, em diversos níveis de qualidade analítica) ou, pelo menos, ampliassem a parcela escolarizada da população. Por isso, outro fator a ser considerado: o que chamamos de “elites intelectuais”, no Brasil, sempre foi um grupo muito pequeno. E, em segundo lugar, boa parte desse grupo, normalmente integrado às universidades e membros das classes médias, se uniram ao campo petista em seu nascedouro. Mas, posteriormente, se afastaram desse campo político e se confinaram ao seu trabalho, a maioria abandonando o esforço de “pensar o Brasil”. Atentem que em nossos dias praticamente quase ninguém mais fala em “projeto de nação”, “modelo para o futuro” ou algo assim que seja sustentado em fatos consistentes, análises bem fundamentadas, como existiu no passado. Nos anos setenta e boa parte da década seguinte, por exemplo, o Cebrap e a setores da USP cumpriram esse papel.

Por que esse é um aspecto tão decisivo? Porque, em essência e em última análise, são as elites intelectuais a parte das elites que mais decisivamente contribui para mudar os países (ou mantém a estabilidade institucional, se essa for a estratégia). Não por sua força política, pois esta fica nas mãos das “elites políticas”, que são as operadoras principais. Mas quem transforma qualquer país, em circunstâncias específicas, são as elites, os segmentos de classe média ou da burguesia que formam esse grande grupo que genericamente chamamos de “elites”. Não é “o povo nas ruas”, como quer uma tradição de esquerda pobre, seguindo o manual de Stédile e outros, a agitação social e os protestos populares são o fermento político que impulsiona as mudanças, mas não são os condutores da mudança. É importante notar que sempre que existe uma convulsão social, a partir de certo momento emerge um setor das elites que, de fato, comanda a transformação. Se não for assim, a anarquia generalizada reinará por um certo tempo.

Elites mudam qualquer país, combinando a força econômica (as elites econômicas) e as elites políticas, normalmente uma parte dela, aquela que galvaniza a direção a ser seguida, em dada conjuntura. Mas, para mudar, precisam de uma orientação, um rumo, enfim, um “projeto” (de nação, de economia, de arquitetura institucional) e essa orientação é o resultado do trabalho das elites intelectuais.

Nosso drama é precisamente esse: não temos elites intelectuais à vista, jamais tivemos um ambiente “pensante” tão rebaixado, superficial, paupérrimo. Quem, atualmente, fala sobre “o Brasil”, sendo capaz de perceber diferenças regionais, sociais, culturais, analisando bloqueios e vendo possibilidades históricas? Quem são os “explicadores do Brasil” de nossos tempos? Vivemos um deserto intelectual, esse é o drama desse período, na minha opinião. Portanto, ainda como parte do diagnóstico, vivemos esse impasse: nos faltam agrupamentos de pesquisadores, acadêmicos, pensadores, estudiosos, analistas e todos aqueles que poderíamos agrupar, grosso modo, como “intelectuais”, motivados para analisar e interpretar o Brasil. Se existissem e se dedicassem a esses esforços, produziríamos estudos, debates, ideias, propostas, análises e, desse caldo, nasceriam muitos caminhos e cenários. E alguns seriam adotados pelas elites políticas, apoiadas pelas elites econômicas e existiriam “luzes no caminho”, uma direção a ser seguida. Todos saberiam, aproximadamente, para onde estaríamos seguindo.

(Por que isso aconteceu no período contemporâneo? Entendo que a explicação é até fácil, mas não farei aqui, para não me estender demasiadamente)

É assim que vejo a conjuntura sob a qual vivemos. Retrocedemos apenas para o imediatismo, o “presentismo” e, assim, cria-se a inexistência do futuro, mesmo o imediato. Não existe, atualmente, ninguém, nenhum partido, nenhum agrupamento social, qualquer um, que seja capaz de apontar com alguma clareza e consistência, uma visão de futuro para o Brasil, mesmo que seja o futuro apenas do médio prazo. Ora, esse vazio, se associado a um conjunto de ameaças (economia patinando, corrupção endêmica, mau desempenho desse ou aquele indicador) cria uma crescente inquietação entre os cidadãos. E é assim porque se torna um futuro ameaçador: no presente estamos frágeis e sequer temos uma “carta de navegação” para enfrentar esses mares tormentosos?
O que fazer, portanto: se eu tivesse capacidade de mobilização, social (dirigente de alguma organização), política (partidos, por exemplo) ou econômica (empresário com algum peso), usaria esses recursos para ir mobilizando parte daquela elite intelectual para tentar oferecer, sob crescente capacidade analítica e sustentação lógica e empírica, as interpretações que pudessem preencher esse vazio, em todos os campos possíveis. E de posse de tais diagnósticos iniciais e propostas futuras, ir forçando a discussão pública e criando um debate na sociedade. O resultado seria a gradativa construção, senão de um projeto geral, pelo menos de uma “ideia geral” de futuro. Ninguém está fazendo isso, em nossos dias, infelizmente, com alguma capacidade de repercussão. Nem os meios de comunicação, nenhum “think tank”, universidade. Menos ainda algum partido político, nenhum deles. Muito menos os chamados “movimentos sociais” ou as organizações sindicais. Se esse esforço pudesse ser feito, surgiriam as propostas, as sugestões de caminhos e, gradualmente, algumas delas poderiam ser sedutoras o suficiente para mobilizar, atrair e, inclusive, se tornar presente nas discussões nacionais. E, quem sabe, veríamos também o nascimento de embriões de elites intelectuais que passassem a exercer o papel que lhes cabe, inexistente no momento.

Um exemplo: nesse momento deveríamos estar discutindo, novamente, algum caminho parlamentarista para o Brasil, pois o nosso “presidencialismo de coalizão” tem fracassado redondamente. Se esse tema fosse capitaneado por um grupo de personalidades representativas, sem um foco partidário específico, mas multipartidário, talvez incentivasse uma discussão maior e, mais à frente, a sociedade decidisse por algo a respeito. Mas é somente uma ilustração, pois os exemplos são inúmeros.

Nunca seria um esforço simples, pois é preciso reconhecer que o campo petista no poder “capturou” praticamente quase tudo, em termos de organizações e instituições que pudessem se integrar a essa iniciativa. Do movimento sindical às universidades federais, de boa parte das organizações da sociedade civil a muitos setores religiosos, sobretudo da Igreja Católica. A crise atual que o campo petista no poder vai experimentando poderá representar uma chance histórica de reconstituição de um debate plural, democrático e rico o suficiente para ir além da “narrativa dominante” que o campo petista impôs ao longo dos anos à sociedade brasileira. E, sob esse aspecto, qualquer iniciativa também receberá o bombardeio político desse campo, que se sentirá ameaçado.
Espero que possa surgir esse esforço da cidadania brasileira. Talvez seja a nossa saída.

Zander Navarro – Engenheiro Agrônomo, Professor e Pesquisador




Nenhuma opinião publicada

O que você tem a dizer?