Agricultura

Por xicograziano, em 23/03/2016 às 09:49  

Agronegócio, âncora da economia

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Parecia notícia de outro mundo: “Alheia à crise, Cristalina cresce e gera empregos”. Mas acontecia, de verdade, no desastrado Brasil de hoje. A manchete do Estadão (02/01/2016) se referia ao pequeno município de Goiás, situado a 131 km de Brasília. Em meio à trágica recessão, um fantástico sucesso. Qual a mágica? Resposta: o mundo virtuoso do agronegócio.

Antiga capital das pedras semipreciosas, Cristalina trocou o garimpo pela agricultura irrigada – a maior área da América Latina – e expressa agora um exemplo da força que brota do campo. Sua grande vantagem reside na diversidade produtiva: soja, milho, café, batata, feijão, hortícolas, fruticultura, eucalipto, pecuária, dezenas de atividades se espalham em seus terrenos, boa parte situados a 1.200 metros de altitude, característica ecológica que oferece a vantagem do frescor noturno às lavouras.

Velhas pastagens, degradadas, se tornaram uma maravilha da agricultura tropical. Quem conduz a moderna tecnologia empregada em Cristalina são jovens e arrojados agricultores, que vieram de longe para vencer a aridez do solo e garantir elevada produtividade quase o ano inteiro. O segredo da agricultura está na irrigação, incluindo aquela por gotejamento, servida apenas no pé das plantas: o uso racional da água é agenda obrigatória por lá.

Sorte dos trabalhadores: Cristalina se encontra entre os seis municípios goianos que mais criaram empregos em 2015. Segundo seu prefeito, Luiz Carlos Attié, decadente com a queda da mineração, até 2008 a taxa de desemprego chegava perto de 40%. Quando chegou o dinamismo das lavouras irrigadas, rapidamente tudo mudou. Afirma o IBGE (2015) que foram geradas 10.869 oportunidades de trabalho em Cristalina, sendo 7.402 delas voltadas ao setor de agronegócio.

Cristalina caminha na contramão da nossa crise econômica. Seu caso não é isolado. Noutros locais de Goiás, no Mato Grosso e no Mato Grosso do Sul, em Rondônia, na região conhecida como Mapitoba (acrônimo que denomina o território formado por espaços agrários do Maranhão, Piauí, Tocantins e Bahia), nos perímetros irrigados do Nordeste, ou mesmo nas regiões tradicionais do Sudeste e Sul do país, a agropecuária está segurando a economia e o emprego. E no interior, todos sabem: quando a roça está aquecida, o comércio vende mais. Tudo se movimenta.

O agronegócio se tornou uma âncora sustentável da economia brasileira. Enquanto no ano passado o PIB nacional caiu 3,2%, o PIB da agropecuária cresceu 2,4%. O superávit agrícola da balança comercial somou US$ 75,15 bilhões; os demais setores da economia tiveram um déficit de US$ 55,47 bilhões. Conclusão: quem paga as contas das importações e aguenta o tranco na economia é o suor dos produtores rurais, somado à labuta dos empregados na indústria de transformação. Sem o vigor do campo, o Brasil estaria totalmente quebrado.

Vem de longe esse papel, de base do crescimento econômico, desempenhado pela agropecuária nacional. Historicamente, nem se precisa falar. Conhecida foi, há um século, a transferência de renda da cafeicultura para bancar a industrialização paulista. Mais recentemente, na chegada do Plano Real, a agricultura funcionou como uma “âncora verde” ao controle dos preços, pois garantiu o suprimento alimentar da Nação.

Há outra vantagem em Cristalina: além de grandes produtores, a cidade também promove centenas de pequenos agricultores. Segundo o presidente local da Associação dos Engenheiros Agrônomos, Renato Leal Caetano, a região mantém 1.200 famílias da “agricultura familiar”. Há espaço para todos. Com uma condição: o progresso exige entrar no ciclo da tecnologia e se integrar, de forma cooperativa, ao mercado, que compra qualidade.

Isolado e com baixa produtividade, ninguém mais sobrevive no campo. Novamente, Cristalina não é exceção. Grandes cooperativas agropecuárias, destacadamente no Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e São Paulo, agregam milhares de pequenos e médios produtores rurais, inserindo-os no mundo da tecnologia e das grandes redes compradoras, nacionais e estrangeiras. Em Goiás, o maior exemplo está na COMIGO, nome curioso da extraordinária cooperativa sediada no município de Rio Verde. O associativismo é a porta de entrada para o sucesso no campo. Pequenos, quando se juntam, tornam-se fortes.

Noutro dia, o ex-ministro da Justiça, José Gregori, sábio homem por essência moldado na urbe, me tomou o braço para confidenciar: “Xico, nesses tempos de crise generalizada, tenho ouvido muita gente falar bem da agricultura, elogiando o setor que você tanto defende”. Fiquei comovido. Ele arrematou: “Jamais vi isso ocorrer antes”. Nem eu.

Finalmente o marketing rural encontrou, em meio à tantas desventuras, um caminho de oportunidade. Vista de forma quase sempre preconceituosa pelos formadores de opinião, que apenas lhe criticam pelo eventual descompasso na agenda ambiental, ou na reforma agrária, nossa agricultura começa a ser reconhecida como um esteio nacional.

Há tempos João Pedro Stédile, ideólogo mor do MST, repete a patacoada de que o modelo do agronegócio é inviável, socialmente injusto, baseado na monocultura, desempregador de pessoas, dominado pelas transnacionais, que visa apenas o mercado externo, enfim, um negócio do mal. Essa ideologia pseudoesquerdista, obscurantista, contamina vários setores da academia, que teimam em raciocinar com o passado, fechando os olhos ao novo mundo rural.

Valeria a pena ele fazer uma visita à Cristalina. Lá iria encontrar o oposto do que prega. Tomaria um banho de realidade. Se quisesse, acharia também um bom emprego. Faz bem trabalhar a favor do Brasil.




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