Brasil

Por Gabriel Rossi, em 16/11/2016 às 11:35  

Shakespeare, Burke, Conrad e o Coração das Trevas Brasileiro

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Morei e estudei em uma cidade inglesa chamada Bristol. Me chamava a atenção, neste lugar, uma linda estátua de Edmund Burke, pai dos Tories e um dos maiores e mais influentes filósofos políticos da história. Burke falou algo que se encaixa como uma luva na conjuntura do Brasil atual: ele disse que, para ter êxito, basta ao barbarismo esperar que a sociedade civilizada não faça nada. Também lembrei de Joseph Conrad (autor de ‘Coração das Trevas’ que é um dos meus livros prediletos). Se o mesmo saísse, no Brasil atual, em busca do coração das trevas – o mal na conduta humana, quando nos deparamos com a ausência de ‘ internos constrangimentos morais e externas restrições legais’ – , ele poderia apenas abrir o jornal e olhar a situação de corrupção, violência e intolerância que estamos enfrentando. Esse país merece mais do que isso.

Shakespeare foi outro ícone da cultura que entendeu, como ninguém, a natureza humana. Entendia que não há qualquer reparo de ordem técnica para os problemas da humanidade. O inglês foi o primeiro a demolir a ideia utópica (ainda defendida por boa parte da esquerda brasileira) que arranjos sociais, se criados de maneira perfeita, farão com que os homens não precisem se esforçar para serem bons. Shakespeare reconheceu que a prevenção ao mal requer muito mais que arranjos sociais. Macbeth, por exemplo, que é a mais curta de suas tragédias e minha predileta, mostra o tirano que tem uma boa vida e não é movido por ideologia e nem autocomiseração mas sim por ambição e medo de parecer fraco perante sua mulher. Contexto tão contemporâneo! Macbeth não é um sociopata. Ele é alguém com a mesma natureza que a nossa e que nos assusta por ser um exemplo alarmante. Curioso pensar que, se não fosse pela figura de Lady Macbeth (responsável por ele abdicar das bondades), Macbeth estaria mais para Hamlet.

“Ângelo”, personagem da primeira peça de Shakespeare que tive acesso (Medida por Medida), quando ainda morava na Inglaterra é outro bom exemplo. Após ter o poder conferido pelo duque de Viena, Ângelo, considerado o paladino da moral e da ética, decretou que todos os bordéis fossem demolidos. Ele também ordena que Cláudio seja preso e condenado à morte pois engravidou sua amada Julieta. Mas Ângelo não era melhor do que ninguém. Ele era até mesmo pior. Ele propõe poupar a vida de Cláudio se Isabela, irmã mais jovem de Cláudio, de rara beleza, deitar-se com ele.

O Brasil é definitivamente uma tragédia shakespeariana.




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